sábado, 6 de dezembro de 2008

Momento Leitura.

O Momento Leitura traz uma das inúmeras crônicas bem elaboradas do escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo. "Como seria" é um texto onde Veríssimo divaga sobre como seria o Brasil se os portugueses tivessem desistido de "investir" em nossas terras. Acompanhe a leitura:

Como seria
Como seria se os portugueses tivessem sido postos para correr - ou para nadar, no caso - naquele 22 de abril, e nunca mais se animassem a chegar perto destas praias, nem eles nem quaisquer outros brancos? Como seria o Brasil, hoje, habitado exclusivamente por índios? Imagine uma reunião dos presidentes do Mercosul, todo mundo posando para a fotografia de terno e gravata e o brasileiro nu. Haveria vantagens e desvantagens em viver numa eterna Pindorama. Para começar pelo mais grave, pelo menos para mim: eu não existiria. Aposto que você também não. Devo ter sangue de índio, se a cara da minha avó paterna não estava mentindo, mas o resto é um coquetel do que veio depois: português, negro, alemão, italiano. Em compensação, também não existiria o Eurico Miranda.
Como seria se os holandeses tivessem derrotado os portugueses e colonizado o Brasil? Para começar, nossos padrões de beleza seriam completamente outros. Em vez de morenas, nossas mulheres seriam loiras de cabelo corrido, e a brasileira mais conhecida no mundo seria alguma longilínea do tipo nórdico, chamada Gisele ou coisa parecida. Nem dá pra imaginar.

Como seria se os franceses tivessem conseguido consolidar a sua civilização subequatorial por aqui? Sei não, talvez a comida não melhorasse tanto assim - também se come mal na França, e vá encontrar uma boa feijoada com couve e torresmo -, mas quem nos assegura que hoje não teríamos uma Carla Bruni como primeira-dama, congressitas que ficassem sentados em seus lugares em vez de se aglomerarem na frente da mesa, um serviço público muito melhor e pelo menos mais quatro feriados nacionais (dia da Bastilha, dia do Armistício de 18, dia do Armistício de 45, dia do Queijo Fedorento etc.) por ano? Talvez fôssemos corruptos do mesmo jeito, já que deve ser alguma coisa na água. Mas as conversas grampeadas seriam em francês! Quer dizer, uma coisa de outro nível.

Luis Fernando Veríssimo. do Livro: O mundo é bárbaro (e o que nós temos a ver com isso).

3 comentários:

Anônimo disse...

Outstanding!!!

Anônimo disse...

Muito bom este texto do Veríssimo!!

Anônimo disse...

Muito legal este texto... Sou fã do Veríssimo!!